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O ESTADO DE SAO PAULO November 9, 2012
By MARIANA LENHARO
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Enquanto Estados Unidos e Europa têm três opções de remédio de nova geração para mieloma múltiplo, o Brasil dispõe apenas de duas drogas aprovadas. Pacientes do Sistema único de Saúde (SUS) recebem só uma delas. No caso do mieloma múltiplo, a disponibilidade de alternativas é importante porque a doença não tem cura: todos os pacientes terão recidivas, momento em que a estratégia terapêutica deve ser trocada.
O panorama de como esse câncer que acomete a medula óssea é tratado mundialmente foi apresentado ontem em evento no Rio, promovido pela International Myeloma Foundation (IMF), organização de apoio aos pacientes. Trata-se da segunda doença onco-hematológica mais frequente, atrás do linfoma, e a principal causa de transplante de medula. No Brasil, a estimativa é de que a doença atinja 4 em cada 100 mil pessoas, diagnosticadas geralmente entre 65 e 70 anos.
As drogas indicadas são a talidomida - que, apesar de antiga, foi incorporada ao tratamento em 1999 e é a única disponível no SUS -, o bortezomibe e a lenalidomida, esta ainda não aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A medicação apontada pelo professor da Escola de Medicina de Harvard Paul Richardson como uma das mais promissoras é justamente a lenalidomida.
Richardson, diretor clínico do Instituto de Câncer Dana-Faber, ligado a Harvard, foi um dos participantes do encontro de quinta-feira (08). "A doença sempre vai retornar. Enquanto o transplante de medula serve apenas para pacientes mais jovens, as novas drogas beneficiam jovens e velhos."
A agência brasileira reprovou a droga por concluir que os estudos apresentados pelo laboratório Celgene foram insuficientes para provar sua eficácia. Os mesmos estudos levaram à aprovação do medicamento na Europa e nos EUA. Na Anvisa, os trâmites têm se prolongado por quase quatro anos.
Segundo a agência, "o processo de registro encontra-se em recurso administrativo, aguardando decisão da Diretoria Colegiada da Anvisa (Dicol)". O recurso pode ser julgado ainda neste ano.
No caso do paciente Dorival Urino, de 68 anos, a indicação da lenalidomida veio após um transplante e várias recaídas. "Não tinha condições de fazer nada sozinho. Um dia, após quatro meses tomando esse remédio, acordei sem nada. Hoje, dirijo sozinho até a clínica em que me trato."
Segundo a médica Vânia Hungria, da Faculdade de Medicina da Santa Casa, além das poucas opções de tratamento para mieloma no País, o diagnóstico é feito tardiamente. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Médicos alertam para atraso no tratamento do Mieloma no país
TERRA November 8, 2012
By Juliana Prado
http://saude.terra.com.br/doencas-e-tratamentos/medicos-alertam-para-atraso-no-tratamento-do-mieloma-no-pais,6bae0623552ea310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html
A Fundação Internacional do Mieloma Múltiplo, organização com representação no Brasil e na América Latina, reuniu especialistas nesta quinta-feira no Rio de Janeiro para discutir os atuais procedimentos e, principalmente, os entraves para o tratamento da doença no Brasil. O clima é de muita apreensão e de alerta, já que o país é considerado ainda muito atrasado no diagnóstico e no acompanhamento de pacientes que sofrem do mal.
O Mieloma Múltiplo é uma espécie de câncer da medula óssea ainda pouco conhecido e difundido, mas com abrangência importante entre a população brasileira e mundial, principalmente a de pessoas com mais de 60 anos. Para se ter ideia, entre as doenças do sangue, o Mieloma é hoje a segunda mais frequente, só perdendo para os linfomas. E também neste cenário, é a primeira em número de pacientes transplantados.
Alguns entraves principais podem ser apontados com relação às falhas do Brasil no combate e controle da doença, o e que comprometem, profundamente, o tratamento de qualidade no país. O primeiro, a dificuldade com que os medicamentos novos chegam ao mercado nacional.
A médica Angela Hungria, da Santa Casa de São Paulo e especialista no tema, critica a não aprovação, pela Anvisa, de um dos mais potentes e avançados remédios à disposição no mercado mundial. Trata-se do Lenalidomida – ou Revlimid. Hoje, só utiliza a droga no Brasil quem consegue autorização judicial. "é um absurdo o que acontece. Os estudos são claros e outros órgãos fora daqui já aprovaram o uso do remédio. Mas a Anvisa sempre alega que os estudos não foram suficientes (para autorizar o uso do remédio no Brasil)", destaca a médica.
Segundo a especialista, o Velcade, outra droga largamente utilizada no mundo, também tem baixa circulação no mercado interno. O SUS, por exemplo, não banca a distribuição do remédio para os pacientes. O grande drama da não circulação de novos medicamentos no páis é que, no caso do Mieloma Múltiplo, quanto mais produtos estiverem à disposição, mais chances de sobrevida terá o paciente. Isso porque a doença não tem cura, os estudos ainda não estão em estágio avançado e as drogas já em circulação, como a Talidomida, podem em alguns casos provocar reações nos pacientes. Daí se necessitar de novas opções constantemente.
Este tipo de câncer também é usualmente conhecido pelos comprometimentos físicos agudos. O mal provoca quebra dos ossos do corpo, num estágio muito mais danoso que a osteoporose, por exemplo. Por isso, é importante testar todo o rol de tratamentos possíveis. Há casos, relata Vânia Hungria, de pessoas que chegam a reduzir até 12 cm na altura corporal, em função de danificação dos ossos.
Transplante
Outro atraso do Brasil em relação a muitos países é no transplante autólogo (do paciente para si mesmo). Segundo o médico Angelo Maiolino, diretor da Associação Brasileira de Hematologia, em muitos casos da doença, o transplante é mais eficaz até que o tratamento convencional, por remédios. Hoje no Brasil já se admite submeter pacientes de até 70 anos ao procedimento, se as condições de saúde gerais permitirem. No entanto, o transplante ainda não é oferecido da forma ideal, sendo poucos os centros de saúde aptos para fazer a tarefa a contento.
Como se não bastasse, o diagnóstico da doença por parte dos profissionais da saúde também é frágil, atesta Vânia Hungria. Segundo ela, há muita gente morrendo da doença sem ter tido a detecção do quadro de Mieloma Múltiplo. "O médico no Brasil não pensa o diagnóstico. Por isso estamos aqui. Porque é importante disseminar a informação". Os especialistas alertam que, apesar de acometer, geralmente, pessoas com mais de 60 anos, a doença tem surgido em pessoas mais jovens, o que também preocupa.
Troca de experiências
O médico Paul Richardson, da Harvard Medical School, referência no tratamento nos EUA, disse que a intenção é que o Brasil consiga avançar nos mecanismos de combate à doença. Ele fez questão de destacar que o tratamento contínuo é peça-chanve no caso do Mieloma, pelo fato de as recaídas durante o processo serem muito frequentes. O especialista defendeu o uso da Lenalidomida (a droga reprovada no Brasil) como um meio muito potente no combate ao mal, e também o Velcade. Ele lembra que os dois medicamentos podem ter menos efeitos colaterais que a Talidomida.
Apesar do quadro de alerta, não há números formais sobre a doença no Brasil. Extraoficialmente, fala-se em 30 mil pacientes em tratamento. Há ainda a informação de que 700 mil novos casos apareçam no mundo a cada ano.
Presente ao encontro sobre o Mieloma, o advogado Dorival Urino, de 68 aos, que está em tratamento contra a doença desde 2004, fez um relato sobre seu quadro clínico e defendeu a circulação de novos remédios para modernizar o combate à doença no Brasil. Ele se tratou com a Lenalidomida depois de uma recaída séria do quadro clínico e teve ótimos resultados.
"Tive muita dor, era da cama para o sofá, do sofá para a cama. Fiquei quase imobilizado, não dirigia e tive que usar um colete. Tomei o Revlimid (Lenalinomida) e certo dia, acordei sem nada", comemora. E ainda manda um recado otimista: "não é porque está com Mieloma que quer dizer que a pessoa vai morrer".
As discussões em torno do tema seguem até domingo, dentro da programação do Hemo 2012, Congresso de Hematologia que acontece no RioCentro, na Barra da Tijuca.
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